A futilidade existencial de um Psicopata Americano
“O produto mais procurado hoje não é mais alguma matéria-prima ou máquina, mas uma personalidade” (Riesman op.cit. p.76 apud Baudrillard 2002, p.160).

Lançado em dezembro de 2000, “Psicopata Americano” acompanha a história de Patrick Bateman (Christian Bale), um jovem, branco, rico, bonito – e justamente por estas características – sem nada que o diferencie de seus colegas de Wall Street. O homem, cercado por uma sociedade de alto padrão, vive uma interminável busca materialista para ser, em sua mente, o melhor de todos. Desta busca, surge uma inveja torturante quando o protagonista encontra alguém que possui mais do que ele, despertando em si um lado visceral que despeja suas frustrações em assassinatos brutais.
O filme da diretora Mary Harron faz com maestria uma crítica social à desenfreada sociedade de consumo, tema dissecado por Jean Baudrillard em seu livro homônimo. Em seu estudo, o filósofo afirma que vivemos em um mundo onde estamos totalmente cercados por bens materiais, ao qual chama de ‘objetos’. Segundo ele, estes objetos seriam centros de uma paixão “cujo investimento afetivo não fica atrás em nada àquele das paixões humanas, paixão cotidiana que frequentemente reina sobre todas as outras, que por vezes reina sozinha na ausência das outras”.

Em uma sociedade vazia de sentimentos, o objeto então deixa de cumprir apenas sua função concreta, como solução de um problema prático, e se torna solução também para conflitos sociais e psicológicos do ser humano. Em “Psicopata Americano”, podemos ver bem a exemplificação desta mudança de finalidade das evoluções tecnológicas que criamos. A busca por bens materiais deixa de ser apenas para que estes cumpram suas funções práticas em nosso dia-a-dia. Patrick Bateman exemplifica o retrato da sociedade moderna onde dependemos dos objetos para nos sentirmos incluídos em tribos sociais. Produtos cosméticos, roupas, veículos, tudo é usado pelo protagonista para ser inserido em um contexto de status máximo.
“Psicopata Americano” aborda essa transformação do objeto em signo durante todo o filme, mas principalmente, nas cenas em que Bateman compara seu cartão de visitas com outros colegas de Wall Street. Aqueles cartões, que deveriam apenas cumprir suas funções de apresentarem tais homens aos seus clientes, se tornam a representação do poder e status que cada um deles têm dentro do círculo social corporativo. A inveja do protagonista por seu cartão não ter tanta qualidade quanto a de outro empresário, o transforma em um monstro ganancioso.
Estudando a figura de Bateman através da obra de Baudrillard, nota-se que o ser humano passa a perceber o bem material não pela função para qual aquele foi criado para cumprir no cotidiano, mas pelo significado de adquirir determinada coisa. Para se tornar, de fato, um bem físico digno de consumo, o objeto é convertido em um signo carregado de conotações que vão muito além da simples função material. Este passa a ser reflexo de uma personalidade, de uma cultura, de poder.

Apesar da obra ser de 2000, podemos trazer sua discussão para uma perspectiva ainda mais atual, não apenas relativa aos bens materiais, mas também a utilização da internet. Se Patrick Bateman vivesse nos dias de hoje, a trama do cartão poderia ser facilmente adaptada para um arco de seguidores em redes sociais. O objeto estudado por Baudrillard se elevou de algo físico para o virtual, mas sua importância fútil permanece intocada.
Bateman seria facilmente a representação das milhões de pessoas que mostram suas vidas perfeitas para seus milhares de seguidores nas redes, mas que fora das telas passam por sérios problemas. Mais de duas décadas já se passaram desde o lançamento do filme, contudo seu debate permanecerá para sempre atemporal. Patrick Bateman será a eterna representação de uma sociedade cada vez mais refém de uma realidade que não reflete o real.
Também é interessante notar o paradoxo no qual “Psicopata Americano” está inserido. Um filme que busca criticar a gananciosa cultura capitalista e seus impactos no ser humano, adorado pelo público que critica este sistema, mas é produzido por um dos maiores marcos do capitalismo moderno, Hollywood, feito com um único intuito: gerar lucro. Lucro este, que por sua vez, é conseguido pelo consumo do público que vive a falsa sensação de estar lutando contra o sistema, quando na verdade está auxiliando a girar as engrenagens dele.
Ficha técnica
Filme: Psicopata Americano
Ano: 2000
Direção: Mary Harron
Onde Assistir: Amazon Prime Video, Apple TV, Star+, Google Play Filmes (disponível para locação) e TV e YouTube (disponível para locação)
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da instituição
Texto: Millena Calazans, Rafael Cruz