Os verdadeiros donos da terra
Roubo em cima de roubo, essa é a história de um país que insiste em permanecer colônia
Desde 1500, quando o Brasil foi invadido pelos portugueses, que muitos saqueadores se consideram donos deste país, assumindo o poder para privilegiar os seus sem se importar com os verdadeiros donos que já estavam aqui, os povos indígenas.
Ainda que a Constituição Federal de 1988 garanta, no artigo 231, que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”, a realidade não poderia estar mais longe da teoria. Se antes eles tiveram sua cultura desrespeitada, os seus povos massacrados, hoje nem mesmo a terra que é deles por direito lhes pertence de fato.
Quando o roubo aconteceu, os europeus obrigaram os povos indígenas a se converterem ao cristianismo , sem se importar com a sua percepção do divino. Nunca houve um encontro de culturas, muito pelo contrário, ocorreu apagamento e imposição. Foi mudado o jeito destes de se vestir, agir, falar e passaram por cima daqueles que não se adaptaram. Sempre tentando passar a imagem de que os indígenas são os selvagens, que oferecem perigo, já os portugueses são superiores intelectualmente e culturalmente , dispostos a mudar essa realidade como vemos na famosa pintura da primeira missa no Brasil.

O apagamento desses povos é uma constante ao longo da nossa história. Os nativos não aparecem nos livros didáticos como protagonistas na construção do país. É sempre representada a mesma ideia de que eles se deixaram iludir pelo o que os portugueses estavam oferecendo e que a melhor coisa que poderia ter acontecido é serem manipulados pelos europeus. Agora, o que tentam fazer é jogar a população contra os povos originários e tirar eles a força daquilo que os pertence, somente porque há riqueza nas terras e a ambição está enraizada nesse sangue manchado brasileiro.
Percebe-se também que, atualmente , perpetua-se a imagem idealizada dos povos indígenas, uma visão muito semelhante à da literatura romântica brasileira do século XIX. Os romances indianistas de José de Alencar, famoso escritor da época, seguem uma premissa na qual o indígena é dotado de virtudes, são personagens tímidos e submissos, ingênuos e completamente devotados à pátria (ao ponto de estar dispostos a sacrificar seus costumes em prol do “bem maior”). Na verdade, esse ideal do escritor de “elevar a literatura brasileira ao nível europeu” só personifica os indígenas nos moldes de cavaleiros dos tempos medievais, não leva em consideração quem era exatamente o nativo. Livros como O guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), pouco revelam sobre a natureza dos povos originários, elas dão destaque à figura indígena, de fato, mas também ajudam a pré-conceber a ideia de que esse índio é apenas a memória de algo que deveria ser.
No papel, os indígenas deveriam ter as suas demarcações de terras, para usufruir e viver como bem devem, porém, depois do atual presidente assumir, seus direitos foram invisibilizados. Após a fala afirmando que os povos nativos não podem “continuar sendo pobres em cima de terras ricas”, foi dada a permissão necessária para os garimpeiros continuarem a matança que sempre fizeram com os indígenas. Agora mais do que nunca, os agressores se sentem legitimados e sabem que nunca serão punidos pelas barbáries cometidas. Em 2020, dois anos após Jair Bolsonaro assumir o poder, 71% das famílias vítimas de invasões de terras e grilagem foram de povos originários, com isso o número de famílias indígenas afetadas por invasões quadruplicou sob o novo governo.
Quantas Yanomanis mais? Quantos Doms, Brunos, Chicos e Dorothys mais até que finalmente quem tenta defender a Amazônia seja verdadeiramente protegido e não assassinado?
Durante a pandemia, o presidente, que já menosprezava a doença e se recusou a buscar uma solução para os brasileiros, foi ainda pior com os povos originários deixando as comunidades sem nenhum apoio e tratando-os com total descaso. Foi só uma forma nova de exterminar esse povo.
Atualmente, o Brasil possui 305 etnias espalhadas por todas as regiões do país. O censo demográfico de 2010 divulgou a existência de 274 línguas indígenas (com exceção das línguas originárias de outros países). A etnia com o maior número de indígenas é a etnia Tikúna, com cerca de 46 mil índios. Visto isso, a pergunta que fica é: por que que com tantas etnias e línguas, nós brasileiros não somos capazes de falar nem sequer uma frase de algum idioma indígena? A resposta é fácil. Como bons colonizados, busca-se sempre apagar o que é nosso e apropriar-se do que é de fora, buscando valorizar as demais culturas sem nem mesmo conhecer a nossa, o típico complexo de vira-lata.
Para aqueles que buscam conhecer mais a pluralidade dos povos indígenas, fica como indicação o livro feito por quem realmente tem a nos ensinar: eles mesmo! Chama-se “Literatura Indígena Brasileira Contemporânea: Autoria, Autonomia e Ativismo”, uma coletânea que os torna protagonistas de sua verdadeira história como tem que ser. Escrito em 2020, por Julie Dorrico, Fernando Danner, Leno Francisco Danner (Orgs.) e está disponível gratuitamente em formato de PDF no site da editora Fi.
FICHA TÉCNICA
Título: Literatura Indígena Brasileira Contemporânea: Autoria, Autonomia e Ativismo
Avaliação: (5 estrelas)
Ano: 2020
Editora: Editora Fi
Organizadores: Julie Dorrico, Fernando Danner, Leno Francisco Danner
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** **Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da instituição
Texto: Jackeline Souza